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Petro: análise do whitepaper da criptomoeda venezuelana

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O Petro, criptomoeda criada e endossada pelo governo da Venezuela, finalmente teve seu whitepaper lançado. Depois de uma disputa com o parlamento do país, que chegou a declarar a moeda inconstitucional, o presidente Nicolás Maduro anunciou o site oficial do projeto.

Por sua vez, o site disponibiliza o whitepaper do Petro para download nas versões inglês e espanhol. No texto de hoje faremos uma breve análise do documento e vamos trazer os principais aspectos técnicos, econômicos e políticos que podem ser encontrados nele.

A primeira criptomoeda estatal

O conceito de uma criptomoeda criada pelo estado já começou a ser abordado por vários países. Inglaterra, Rússia e Estônia já manifestaram o desejo de criar uma versão digital de suas moedas. A Venezuela, porém, se tornou a primeira nação a colocar a ideia de fato em prática através de um whitepaper e uma ICO.

O documento possui 20 páginas, sendo que as oito primeiras são bastante conceituais. Explicam a importância da tecnologia Blockchain, conceito como smart contracts, tokens e criptomedas. Trata-se de uma parte introdutória e bastante conhecida por quem já leu vários documentos do tipo.

A partir do Ponto 3 do documento, a proposta da Petro começa a ficar mais clara. O documento ressalta a grande quantidade de reservas de petróleo do país, o maior detentor mundial de reservas. O petróleo, segundo o governo, será uma das commodities nas quais o valor do Petro será baseado.

Em seguida, o documento alerta sobre as criptomoedas existentes no mercado e sua alta volatilidade, citando como exemplos Bitcoin, Ether e Ripple em uma tabela com porcentagens de subida e queda nas cotações. Segundo o whitepaper, o Petro terá o diferencial de ser uma moeda estável por ser mastreada em bens reais.

Funções do Petro

No Ponto 4 temos detalhes sobre como o Petro funcionará. A moeda tem como objetivo servir em três funções:

  1. Meio de troca, podendo ser usada para pagar não apenas bens e serviços, mas também taxas governamentais e impostos;
  2. Plataforma digital, servindo como representação virtual dos bens e commodities que a lastreiam;
  3. Poupança e facilitador de investimentos, talvez a parte mais polêmica e da qual os investidores podem ter mais descrença, dado o histórico do país com a inflação. Segundo o paper, o Petro estará apto a trabalhar com tecnologias como o Atomic Swap e o governo fará um forte controle de qualidade para prevenir atos como a lavagem de dinheiro.

Quantidade e divisibilidade

O Petro terá uma oferta de 100 milhões de tokens. Cada um deles pode ser dividido em até oito casas decimais, da mesma forma que o Bitcoin. A menor unidade da moeda (0,00000001) se chamará Mene.

Uma aparente contradição se deu na forma de mineração da moeda. O paper afirma que o Petro será um token ERC-20 pré minerado, com os tokens sendo produzidos no início. Mas o mesmo paper também afirma que o projeto terá uma mineração PoS, onde cada Petro dará um voto ao seu detentor. Como o próprio Nicolás Maduro recentemente afirmou que os mineradores da moeda teriam que fazer um registro inicial, não ficou totalmente claro se o sistema será de mineração PoW, PoS ou híbrido, uma vez que o documento não detalha mais informações nesse sentido.

Além disso, o governo do país não terá autorização para emitir novas unidades de Petro. Assim como o Bitcoin, a moeda terá uma emissão fixa e finita. O que pode ser um alívio para muitos em se tratando de um país conhecido por ter a maior hiperinflação do mundo e total irresponsabilidade na emissão do bolívar, sua moeda nacional.

Pré-venda e ICO

A pré-venda do Petro terá início no dia 20 de fevereiro, com duração até 19 de março. Já a ICO começará no dia 20 de março.

Do total de 100 milhões de tokens, 82 milhões serão destinados para aquisição por parte dos investidores (38,4 milhões na pré-venda e 44 milhões na ICO). Mais informações sobre a venda podem ser lidas aqui.

Os 18 milhões de tokens restantes ficarão em posse da Superintendência de Criptomoedas e Atividades Relacionadas da Venezuela (SPUCACVEN).

A grande ironia (para não dizer piada) é que o governo não vai permitir a aquisição de tokens com o uso do bolívar. Sim, a Venezuela não irá aceitar sua própria moeda nacional para a compra dos tokens emitidos pelo seu governo, pelo menos na fase de pré-venda.

Veredicto

O Petro é uma moeda bastante difícil de ser avaliada. Embora seja a primeira ICO realizada por um governo, isso não significa que sejam um marco histórico ou algo que os investidores possam comemorar.

A Venezuela se tornou um país assolado por uma inflação sem controle, um empobrecimento geral da população, falta de segurança, casos de corrupção generalizada e de opressão dos cidadãos por parte do estado. O país enfrenta escassez de bens, dólares e a sua economia já foi rebaixada para o status de “calote“.

Investir em um país com esses tipos de risco já seria algo bastante arriscado. Investir em uma criptomoeda emitida por um país assim (um bem volátil e de altíssimo risco por natureza) pode ser uma atitude próxima ao irresponsável, especialmente para o pequeno investidor.

A falta de informações mais detalhadas sobre a moeda e o tom inconclusivo de muitas informações no whitepaper, o qual parece ter caprichado mais no design do que nas informações, também torna difícil uma maior tomada de decisão. O Petro pode vir a ser nada mais do que uma altcoin especulativa como outras tantas. E também temos o aspecto moral: é certo investir em uma moeda emitida por um governo que poderá usar o dinheiro arrecadado para manter um regime opressor contra os seus cidadãos?

Conclusão

Mesmo com o lançamento do whitepaper oficial, o Petro ainda se encontra cercado de dúvidas e incertezas sobre o seu funcionamento. A cerca de duas semanas do lançamento oficial, a primeira criptomoeda emitida por um governo não mostra a que veio.

O Criptomoedas Fácil continuará cobrindo mais informações sobre o lançamento da moeda. Acompanhe nossas notícias anteriores sobre o tema e fique atento as novidades.