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Jeffrey Tucker diz que “a teoria marxista não explica o valor do Bitcoin”

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Nota do redator: esse texto foi elaborado no Dia do Trabalho nos EUA (03/09) pelo escritor Jeffrey Tucker em sua coluna no site da Forbes. Nele, o autor explica os motivos pelos quais, em sua visão, a teoria do valor-trabalho, proposta no século XIX pelo alemão Karl Marx, não serve para explicar o valor do Bitcoin.

Estou escrevendo no Dia do Trabalho, então, é claro, estou pensando em todas as confusões patéticas que podem ocorrer sobre esse assunto. A falácia número um é a teoria do valor-trabalho. A ideia aqui é que as coisas e ações possuem valor por causa do trabalho que despendemos ao realizá-las. Soa intuitivamente correto. Na verdade, porém, é algo completamente errado. As coisas têm valor porque você e eu as valorizamos, independentemente de insumos de mão-de-obra e do tempo de trabalho dedicado.

Acontece que o espaço intelectual das criptomoedas está repleto desse simples erro. Uma visão generalizada é que o Bitcoin é valioso apenas por causa do método de prova de trabalho (PoW) que exige que alguma energia e hardware sejam aplicados para resolver algoritmos complexos. É assim que a rede estabelece o acesso ao ledger (o livro-razão do Bitcoin) e a autoridade para alterá-lo. Por causa desse trabalho, o Bitcoin obtém valor como reflexo e, necessariamente, até mecanicamente.

Mais uma vez, isso está completamente errado.

Eu notei essa teoria sendo usada nos círculos de entusiastas do Bitcoin. Mas só foi preciso uma rápida pesquisa para descobrir que o problema é muito pior do que eu pensava! Aqui está um artigo na Fundação P2P, publicado ainda este ano, que argumenta que a teoria do livre mercado não pode explicar o valor do Bitcoin. Só o marxismo pode. Sim, você leu certo. Abaixo está o nosso amigo expondo seu ponto.

A teoria do dinheiro de Marx não está enraizada na remissão, nem na colateralização, nem na renda, nem na utilidade, mas sim no trabalho.

Ironicamente, enquanto as teorias capitalistas libertárias sobre o dinheiro não podem explicar o Bitcoin, as teorias marxistas podem. O valor de face do Bitcoin representa um certo valor em termos do tempo de trabalho embutido no poder de computação usado para mineração. A teoria marxista do dinheiro é uma teoria da prova de trabalho.

Para Marx, o valor de todas as mercadorias não é subjetivo, mas objetivo; todas as mercadorias têm um valor que é criado pelo trabalho necessário para produzi-las. A razão pela qual o dinheiro pode ser usado como uma maneira de expressar o preço de outras commodities é porque ele representa uma certa quantidade de trabalho, que é também o valor das outras commodities.

Eu posso até ouvir economistas mais experientes lá fora agora, gritando enquanto arrancam os cabelos!

Teoria x mundo real

O que temos aqui é uma confusão costurada através de uma metáfora. O ecossistema do Bitcoin é preenchido com eles: carteiras (não, não são realmente carteiras), prova de trabalho (não, realmente não funciona), mineração (não, não mineração real) e até Bitcoin (não é uma moeda, mas sim um código matemático). Toda esta linguagem figurada nos dá uma maneira de falar mais ou menos inglês, mas também introduz uma confusão fantástica sobre a realidade.

Observe que nosso amigo cripto-marxista (cujo nome é Dmytri Kleiner) não está apenas alegando que o valor do Bitcoin vem do trabalho. Ele diz que o trabalho é a fonte de todo valor. Apenas pense sobre isso.

Digamos que você decida passar as férias inteiras fazendo biscoitos de bolas de pelo expelidas pelo seu gato. Seu gato “trabalhou” tão duro para fazer esses biscoitos, e você “escravizou” o bichinho o dia todo para transformar seus pelos em biscoitos cozidos.

Agora você vai ao mercado com suas criações gloriosas. Você tenta vendê-los. Claro que não posso dizer com certeza se você encontrará compradores dispostos a dar seu dinheiro em troca de biscoitos feitos de pelo de gato. Mas eu não preciso ir muito longe para dizer que é improvável que você encontre alguém que esteja disposto a pagar um bom dinheiro por eles. É mais provável que você apenas cause muitos engasgos nas pessoas.

Para o seu maior aborrecimento, parece que seus biscoitos de bola de pêlo não têm valor, apesar das muitas horas e horas de trabalho que você e seu gato colocam neles. Como isso pode ser possível?

Eis o porquê: essa teoria (valor-trabalho) está errada. O valor é transmitido para um bem ou serviço através das pessoas no mercado. Elas devem valorizá-lo ou então seu produto não venderá (o que soa como um truísmo, mas se é tão óbvio, por que tantas pessoas entendem errado?). Esse valor é subjetivo e vem da mente dos outros, não do seu próprio trabalho. Isso é absoluta e universalmente verdadeiro para todos os bens e serviços da economia.

O Bitcoin

O leitor talvez esteja tentando pensar em exceções. Talvez a água? Bem, isso depende. Não há dúvida de que precisamos de água, mas que não damos valor objetivo à água. Se fosse possível ter acesso ilimitado a Perrier (marca de água mineral) sem fim, o preço dela acabaria por cair para zero. Por outro lado, se alguém está morrendo no deserto, pode ser plausível pagar toda a sua fortuna por uma garrafa de água.

Ou talvez você pense que a Bíblia tenha valor objetivo. Pode ter valor moral ou você, pessoalmente, pode valorizá-la, mas, em termos econômicos, qualquer unidade bíblica é valiosa apenas enquanto as pessoas estiverem dispostas a pagar por ela. Nada mais.

De volta ao Bitcoin. Digamos que você tenha computadores em todo o mundo para executar funções de hashing. Os quartos são quentes e barulhentos. Esta “mineração” está fornecendo provas maciças de trabalho, mais do que todos os outros trabalhos combinados. O resultado é que você recebe toneladas de, digamos, WorkCoin. Então você começa a usá-la para alguma coisa. Acontece que a WorkCoin não faz nada. Você não pode enviá-la nem comprar nada com ela, e ela não é convertida em nada que seja valioso.

Em outras palavras, você desperdiçou todo o seu trabalho.

É o mesmo com o Bitcoin. Se você não pudesse fazer nada com ele, se não houvesse uma Blockchain que permita a troca P2P deste numerário matemático; se você pudesse, de alguma forma, criar uma separação entre bitcoin e blockchain, qual seria o seu valor? Absolutamente zero. Isso não é especulação. Entre 3 de janeiro de 2009 e 5 de outubro de 2009, o valor do bitcoin foi precisamente esse: $0. Isto ocorria, até onde sabemos, simplesmente porque não havia nenhum preço formado.

Valor de uso do Bitcoin

Por que as pessoas mineram, ou seja, trabalham para obter bitcoins? Porque a esperança era que eventualmente ele pudesse ser útil.

O primeiro preço do Bitcoin surgiu em 5 de outubro de 2009, e foi algo como 1/16 de um centavo de dólar. Se ele só se tornou valioso naquela data, por que praticamente não houve tantas transações nos 10 meses anteriores? Os geeks estavam testando a rede para ver se ela poderia funcionar. Funcionou e o valor começou a emergir. De onde veio? Das mentes dos usuários. Ninguém disse: “Ei, os computadores têm trabalhado tanto por 10 meses, então esse dinheiro mágico da internet certamente já deve ter algum valor!”

Tudo isso é para dizer que o valor do Bitcoin não é causado pelo trabalho realizado para criá-los. O valor do Bitcoin vem do seu valor de uso real. Isso é tudo. É por isso que as pessoas estão dispostas a gastar recursos para isso. O Bitcoin tornou possível agrupar pacotes de informações imutáveis ​​e transferi-los ponto-a-ponto, sem um intermediário, para qualquer lugar do mundo, dentro de uma rede resistente à censura, preservando uma trilha de auditoria dos direitos de propriedade de cada unidade.

Isso é valioso? Sim. Trata-se de algo que nunca antes foi possível na história do mundo. O valor é rastreado até o serviço que ele fornece, nada mais. Se não fornecesse esse serviço – ou se não o fizesse tão bem ou melhor que os serviços financeiros convencionais – o valor cairia novamente para zero. (desenvolvedores do Bitcoin: Espero que você esteja ouvindo. Não existe uma “reserva de valor” que possa durar muito tempo sem a capacidade de utilizar o material para alguma coisa.)

Uma nota final sobre o próprio Karl Marx: ele realmente acreditava na teoria do valor-trabalho, como fizeram muitos economistas clássicos antes dele. Seu argumento em particular era que, se o valor pertence aos trabalhadores, então os capitalistas não deveriam estar tirando isso deles. É por isso que precisamos do socialismo para expropriar os expropriadores, disse ele. Mas ele foi totalmente refutado sobre este ponto central no final do século 19 por uma virada gigantesca na teoria econômica, chamada de Revolução Marginal.

Eu adoraria mudar o nome do Dia do Trabalho para o Dia da Utilidade Marginal. Afinal, se o dinheiro mágico da internet realmente se tornar real – e isso está se mostrando possível com o Bitcoin – então tudo é possível.

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