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Desestatização do dinheiro; A “previsão” de Hayek que levou ao surgimento do Bitcoin

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Desestatização do dinheiro; A “previsão” de Hayek que levou ao surgimento do Bitcoin

Em 2018, houve uma grande euforia na comunidade de criptoativos – e ela não teve nada a ver com preço. No dia 31 de outubro, comemorou-se os 10 anos do lançamento do whitepaper do Bitcoin que, para muitos, é o marco inicial das criptomoedas. Um momento histórico para a comunidade, mas que acabou eclipsando outro grande momento.

Afinal, 2018 também marcou os 40 anos do lançamento de uma das mais seminais obras sobre economia e moeda já escritas: o livro Desestatização do Dinheiro. Livro que, aliás, inspirou o nome dessa coluna. E é ele que trago na resenha de hoje.

Os males previstos por Hayek

Até o momento, a principal conclusão é que a maior falha da estrutura de mercado, qual seja, sua suscetibilidade à depressão e ao desemprego periódicos – objetos de justificada censura –, é consequência do milenar monopólio governamental sobre a emissão da moeda. (F. A. Hayek)

Hoje, muitos entusiastas e investidores de criptoativos se identificam como anarquistas e desafiam o controle estatal sobre o dinheiro. Aqueles com um pouco mais de conhecimento podem identificar os cypherpunks da década de 1980 como os precursores da ideia.

No entanto, um dos mais famosos proponentes da separação entre moeda e estado defendia isso ainda nos anos 1970: o economista austríaco Friedrich von Hayek. Ganhador do prêmio Nobel de economia em 1974, Hayek lançou sua polêmica defesa do dinheiro privado 4 anos depois. O resultado foi o livro Desestatização do Dinheiro, lançado em 1978.

Hayek lançou sua obra quase uma década depois do fim do padrão-ouro, decretado pelo presidente americano Richard Nixon em 15 de agosto de 1971. Com essa medida, a moeda deixava de ser um bem de mercado (no caso, o ouro) e passava a depender exclusivamente dos bancos centrais – e de seus respectivos governos controladores. Entrávamos, assim, na era das moedas fiduciárias, a qual existe até os dias de hoje.

Através de sua tese sobre moedas privadas, Hayek defendeu uma ideia que até hoje soa como polêmica: o fim do monopólio do estado sobre a produção de dinheiro. No livro, Hayek afirma que o dinheiro – assim como qualquer outro bem – tende a ser de melhor qualidade quando é submetido às leis de mercado, como a concorrência. Hayek afirma, de maneira categórica, sua crença de que a livre iniciativa pode oferecer uma moeda de melhor qualidade do que o estado, caso lhe fosse permitido exercer essa atividade empresarial.

40 anos depois, a previsão do economista sobre os males do monopólio estatal estão cada vez mais evidentes. A crise de 2008 foi o ápice desse caos, com os governos interferindo, estabelecendo cada vez mais controle sobre os indivíduos, no processo de mercado. Além disso, a salvação de grandes empresas e bancos com o uso de dinheiro pago pelos mais pobres, em forma de impostos e programas de “estímulo”, abriram espaço para uma crise que pode ter um potencial destrutivo ainda maior do que 10 anos atrás.

Só que nem mesmo o próprio Hayek poderia imaginar que 16 anos após sua morte, e 30 anos após teorizar como seria um livre mercado da produção de dinheiro, um ilustre desconhecido colocaria em prática sua teoria.

Bitcoin: a velha teoria com a revolucionária prática

A investigação mais profunda da sugestão de que o governo seja despojado de seu monopólio sobre a emissão de moeda permitiu descortinar as mais fascinantes perspectivas teóricas e demonstrou a viabilidade de sistemas de organização que jamais haviam sido cogitados. (F. A. Hayek)

A teoria de Hayek, como era de se esperar, jamais foi testada na prática. Nenhum governo jamais autorizou que moedas privadas fossem produzidas e pudessem concorrer contra o seu monopólio. Entretanto, disrupções em sistemas costumam vir de quem desobedece regras.

Em 2008, Satoshi Nakamoto resolveu desobedecer o monopólio estatal e trazer ao mundo o Bitcoin. 30 anos depois de Hayek propor a teoria, Satoshi a colocou em prática. E isso torna a leitura de Desestatização do Dinheiro ainda mais impactante, seja para o entusiasta veterano ou para quem mal conhece o Bitcoin.

Se Hayek fosse vivo, certamente sentiria orgulho de ver que as suas ideias de um sistema privado e produção de moedas ajudaram a criar um mercado que hoje vale mais de US$ 100 bilhões. A geração privada de moedas acabou, como previsto por ele em 1978, gerando um mercado tão mais eficiente que até mesmo os estados procuram entender como ele funciona e criar suas próprias criptomoedas – como já fez a Venezuela com o Petro.

O Bitcoin é, ao mesmo tempo, algo inovador e “arcaico”. Inovador porque nunca foi tentado com sucesso antes. E arcaico, por já ter sido previsto e teorizado antes.

Em um trecho do livro, Hayek fala sobre quais características as moedas precisariam ter para sobreviver em um livre mercado: “seriam vitoriosas na competição aquelas cujo valor se tivesse mantido essencialmente estável e que tivessem impedido tanto a excessiva estimulação do investimento quanto os consequentes períodos de retração.” Embora essa citação possa soar como uma antítese do mercado de criptoativos (marcado por uma grande alta em 2017 e uma forte queda em 2018), quando olhamos para o longo prazo o Bitcoin mostra uma grande tendência a rumar em direção a obter essa estabilidade, a medida que a maior aceitação dele como moeda e a sua procura no mercado crescem.

Desestatização do Dinheiro é um livro curto (menos de 200 páginas), porém é de um conteúdo bastante enriquecedor. Diferentemente de The Bitcoin Standard e Mastering Bitcoin, ele obviamente não menciona criptomoedas. No entanto, ele sempre será um livro atual e fundamental para entender o funcionamento do sistema bancário – e que existem alternativas melhores do que o estado ou um banco central para cuidar da produção de dinheiro.

E como que para esclarecer e fortalecer ainda mais seu argumento, Hayek coloca nos apêndices do livro uma tabela que mostra a destruição do poder de compra das moedas de diversos países, do Chile até o Reino Unido. A tabela mostra o porquê que devemos ter Bitcoin em nossas carteiras: nenhum estado pode destruir o poder de compra de seus donos.

O Bitcoin ainda está em sua infância. Por isso, a ajuda de um “quarentão” é fundamental para que ele amadureça bem e nunca se desvie de seu verdadeiro propósito. E, nesse caso, ele não poderia ter um mentor mais qualificado.

O livro está disponível gratuitamente e o download pode ser feito aqui.

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