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Conheça o projeto brasileiro de mobilidade urbana que usa blockchain

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Conheça o projeto brasileiro de mobilidade urbana que usa blockchain

Há pouco mais de dez dias, o Criptomoedas Fácil anunciou a premiação internacional obtida por um projeto pioneiro lançado no Brasil: o Observatório de Mobilidade Urbana, em Teresina (PI).

O projeto tem como objetivo melhorar o sistema de transporte público da capital piauiense, fornecendo maior segurança e transparência nos dados gerais a respeito do setor. Tamanha inovação levou o Observatório a ser escolhido pela Agência Francesa de Desenvolvimento para receber um financiamento de 500 mil euros.

Com o intuito de conhecer mais detalhes sobre a abrangência e o funcionamento do Observatório, o Criptomoedas Fácil entrou em contato com a Secretaria Municipal de Planejamento de Teresina e realizou uma entrevista com representantes da Agenda Teresina 2030, responsável pela implementação do projeto. A Agenda 2030 é um projeto da Organização das Nações Unidas (ONU) com metas para serem cumpridas até 2030, e a prefeitura de Teresina foi uma das primeiras do Brasil a adotar esse projeto, do qual está inserido o Observatório de Mobilidade.

Gabriela Uchôa é coordenadora da Agenda e Flávia Maia é assessora de sustentabilidade e resiliência urbana da prefeitura. Confira o que elas contaram sobre o projeto e como a blockchain pode ser útil para melhorar a confiança dos usuários no transporte coletivo municipal.

Criptomoedas Fácil: Olá, Gabriela e Flávia. Contem-nos sobre a Agenda 2030 e a atuação do projeto nas questões de mobilidade urbana.

Gabriela Uchôa: A Agenda Teresina 2030 é uma agenda de governo aberto para construir uma cidade mais inteligente, resiliente e sustentável. Construímos essa estratégia através de um think tank local e temos como objetivo criar projetos e protótipos para avançarmos em termos de planejamento de políticas públicas em parceria com a prefeitura. Contamos com parcerias tanto com a iniciativa privada quanto com a sociedade civil, e também contamos com parcerias internacionais – especialmente de organismos que fornecem suporte ao governo. Nossos projetos combinam áreas como o governo aberto (o uso da tecnologia blockchain na abertura de dados públicos) quanto o conceito de cidades inteligentes.

Dentre as metas do nosso projeto, queremos apresentar meios de construir uma cidade inteligente, com foco nas pessoas, que saiba lidar com recursos escassos, sejam financeiros ou naturais, para Teresina, mas também esperamos que sirva de modelo para outras cidades e regiões. Queremos desenvolver um modelo de gestão compartilhada no qual o setor privado possa trabalhar em parceria conosco. Para isso, utilizamos a estratégia de governo aberto como uma forma de facilitar a transição entre esse sistema de documentos de papel rumo a um modelo digital.

CF: Quais os principais problemas que a cidade de Teresina sofre no campo do transporte urbano?

Flávia Maia: Aqui em Teresina, como em muitas cidades do Brasil e da América Latina, existe uma enorme dependência em relação ao carro particular (segundo dados do Denatran, nossa frota de veículos aumentou 216% nos últimos nove anos). Isso tem um impacto direto em nossas emissões de gases que causam o efeito estufa, além de ser um modelo de mobilidade que já se mostrou insustentável.

Outro problema se deu no crescimento da cidade, o qual foi realizado de forma dispersa (o chamado crescimento espraiado). Isso tem impactos diretos na mobilidade, pois aumenta consideravelmente o tempo das viagens (que, no transporte público, cresceu significativamente em relação ao transporte particular), traz grandes dificuldade de fluidez no trânsito, compromete a segurança e a eficácia do transporte público como um todo, pois compromete os custos de implantação e a qualidade do transporte. Isso se reflete na qualidade do mesmo e na demanda da população pelos ônibus, que caiu 14% nos últimos anos. Isso também traz impactos financeiros, pois afeta a saúde financeira das empresas. O governo, por sua vez, precisa entrar com aportes, para evitar que o preço da tarifa suba demais.

Tudo isso traz uma série de custos para a cidade: ambientais, financeiros, em termos de qualidade de vida. Por isso que nosso esforço no momento é o de melhorar a qualidade desse transporte público, a confiabilidade dos usuários no transporte, para que possamos ter uma mudança na nossa matriz de transporte: uma que privilegie o transporte coletivo em detrimento do individual.

CF: Conte-nos sobre o Observatório de Mobilidade. Qual o papel do projeto na solução dos problemas municipais?

GU: Um dos problemas que identificamos no transporte público de Teresina – que é mais um ponto ausente do que um problema – era a preocupação com a qualidade das operações do sistema de implantação do BRT. O sistema de controle já existente é mais voltado para o controle da fluidez do BRT e não das operações em si. Então, para conseguirmos monitorar a qualidade do projeto, precisávamos de um sistema que eliminasse o problema de confiabilidade que existe em todo o setor no Brasil, de todas as partes (empresas – prefeituras, prefeituras – população). Nosso objetivo foi criar um modelo que reduzisse essa assimetria de informações e aproximar a população do processo de tomada de decisões, algo que constitui um dos pilares da Agenda Teresina 2030.

O projeto propõe, além do uso da tecnologia blockchain, a criação de um comitê para a operação dos serviços de ônibus. E esse comitê corresponde ao Observatório da Mobilidade. Ele é composto pelas três entidades (governo, população e setor privado) e será o responsável pelas tomadas de decisões com base nas informações disponibilizadas pelo sistema.

Esperamos ter como resultados o aumento da confiabilidade entre os atores envolvidos no sistema de transporte e a melhora da imagem desse serviço, o bom compartilhamento de responsabilidades e, com isso, o aumento da sua eficiência e da confiança da população nas informações sobre o transporte público da cidade.

CF: Em algumas notícias vimos que a blockchain utilizada no Observatório é a Hyperledger da IBM. Vocês poderiam confirmar a informação e explicar o que levou à escolha dessa tecnologia?

GU: O nosso projeto foi desenvolvido em parceria com a Escola de Governo da Organização dos Estados Americanos (OEA), através do fellowship em governo aberto das Américas. Trata-se de um fellow que reúne membros de diversos países e organizações, no qual eu também faço parte, e ele desenvolve projetos pilotos na parte de governo aberto. Dentro da iniciativa, tivemos contato com o Brian Belendoff, CEO da Hyperledger, e ele nos deu apoio na iniciativa do Observatório.

A opção dessa escolha deve-se ao fato de que nossa intenção inicial era utilizar uma blockchain permissionada para que todos os atores no setor de transporte público tivesse acesso às informações de forma confiável. Por conta disso, resolvemos utilizar a Hyperledger, tornando-nos a primeira cidade da América Latina a utilizar essa tecnologia no serviço público. As possibilidades de parcerias e o contato prévio com a OEA também foram motivos que nos levaram a fazer essa escolha.

CF: Quais dados estarão disponíveis para consulta pública dentro da blockchain?

FM: A nossa ideia é que sejam os dados de operação do transporte que tenham relevância para o controle de qualidade. Nesses dados incluem-se taxas de atrasos, de viagens não realizadas, dados de operações por linhas, bilhetagem eletrônica, tempo de trajeto, distância percorrida; em suma, todos os dados relevantes para o controle da qualidade do sistema estarão disponíveis para consulta pública na blockchain.

No nosso sistema de licitação já existe uma previsão de controle de qualidade contendo cinco indicadores. Então iremos começar por aí, abastecendo o sistema com dados que sejam relevantes para mensurar esses indicadores.

CF: Qual o status atual do desenvolvimento e integração da tecnologia à administração dos processos de transporte urbano?

FM: Atualmente, trabalhamos com um projeto-piloto. Estamos na convocatória internacional do Euro Clima +, feita pela União Europeia, na qual concorremos na categoria “mobilidade sustentável” como uma solução smart em urbanismo. Concorremos junto com diversas cidades da América Latina e do Caribe.

A convocatória terá duas fases de trabalho. A primeira fase, na qual nós entramos, nos deu um contato no mês passado com a Agência Francesa de Desenvolvimento. Eles financiam o projeto e vieram avaliar as condições atuais. Temos a expectativas de assinar o contrato em setembro, e o início oficial do projeto será no mês de novembro.

CF: Como foi a repercussão nacional do projeto? Vocês sabem informar se existem planos de expandir para outras cidades do Piauí, ou até mesmo para outros estados brasileiros?

GU: Ficamos muito felizes com a repercussão do Observatório. Na verdade, nem esperávamos uma repercussão tão grande aqui no Brasil (risos). Tivemos reuniões com vários órgãos da administração federal e eles manifestaram interesse em apoiar o projeto. Dois desses órgãos foram o BNDES e o Banco Central (BACEN). O BACEN também possui um projeto de aplicação de blockchain. Ainda não existem planos para expansão em outras cidades do Piauí, mas já temos diversas parcerias com órgãos interessados nisso.

Além disso, também recebemos convites para falar sobre a utilização da tecnologia blockchain na administração pública, e estamos com um acompanhamento direto pelo Ministério das Cidades, que já afirmaram seu interesse em acompanhar o andamento das atividades, assim como a replicabilidade para outras cidades brasileiras. Isso vai de acordo com a missão inicial do nosso projeto: ser uma ferramenta de código aberto que possa ser replicada em qualquer outra cidade no Brasil.

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